quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Sobre amor e as Máximas de Grice

"Sentirei alguma coisa que se fecha no meu peito 
Como pesada porta. Terei ciúme 
Da luz que te configura e de ti mesma 
Que te deixas viver, quando deveras 
Seguir comigo como a jovem árvore na corrente de um rio 
Em demanda do abismo. Vem-me a angústia 
Do limite que nos antagoniza. Vejo a redoma de ar 
Que te circunda - o espaço 
Que separa os nossos tempos. Tua forma 
É outra: bela demais, talvez, para poder 
Ser totalmente minha. Tua respiração 
Obedece a um ritmo diverso. Tu és mulher. 
[...] 
 Mas nada
Consegue arrancar-te à tua obstinação 
Em ser, fora de mim - e eu sofro, amada 
De não me seres mais. Mas tudo é nada."

Amor dos Homens, Vinícius de Moraes

Todo amante já se sentiu Vinícius. Todo o que ama já sentiu algo pesado como uma porta se fechar no peito só de imaginar as léguas caminhadas pelas pernas amadas. Essa porta pode ser tranformada em um berrador ou pode fazer da boca um túmulo, disfarçada com um sorriso terno que oculta a alma. Morte por sentimento, ao melhor estilo Werther.  Mas se Grice estiver no dosador o quadro pode ser revertido e o gilete-azul não sairá do armário (por enquanto). As Máximas de Grice guiam o processo conversacional e objetivam a concretização da cooperação. Assim como no amor. Conversar cooperando, cooperar conversando. Competente linguisticamente, competende amorosamente. Primeira, Máxima da Qualidade. Dizer a verdade, não dizer o que crê falso, não dizer o que não pode provar verdadeiro. Violam a Qualidade aqueles que jogam com as palavras para conseguir sentimentos. Diga que sente saudade, se for verdade. Não diga que ama se crê ser falso amor. E, principalmente, não diga que deseja sem provar a veracidade do desejo. Discursos repletos de pretéritos imperfeitos ferem os ouvidos dos quais adentram. Segunda, Máxima da Quantidade. Que o dito seja necessário, fundamental e não repetitivo - não válida para os amantes poetas, como a que aqui vos escreve -. Ou ouvidos precisam ouvir o bom na medida certa e o coração precisa sofrer com moderação. Diga uma vez que se sente invadido pelo ciúmes de Moraes e não violará a Quantidade. Necessário, fundamental, não repetitivo. Discursos adjetivados lubridiam o coração daquele que os recebe. Terceira, Máxima da Relevância. Estabelecer pertinência entre os enunciados. Não fale com os seus botões quando aquele que o ama está afirmando que pretende costurá-los para o resto da vida. Não diga que o céu está lindo quando a tempestade nos olhos do outro é visível. Discursos desvairados desequilibram o mais pertinente. Quarta, Máxima do Modo. Contribua clara e brevemente. Algumas linhas, um coração que padece de nostalgia, ciúmes que definha. Tudo é nada











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